terça-feira, 5 de junho de 2007

ANTEPASSADO - Carlos Drummond de Andrade, in: A paixão medida

"Só te conheço de retrato, não te conheço de verdade, mas teu sangue bole em meu sangue e sem saber te vivo em mim e sem saber vou copiando tuas imprevistas maneiras, mais do que isso: teu fremente modo de ser, enclausurado entre ferros de conveniência ou aranhóis de burguesia, vou descobrindo o que me deste sem saber que o davas, na líquida transmissão de taras e dons, vou te compreendendo, somente de esmerilar em teu retrato o que a pacatez de um retrato ou o seu vago negativo, nele implícito e reticente, filtra de um homem; sua face oculta de si mesmo; impulso primitivo; paixão insone e mais trevosas intenções que jamais assumiram ato nem mesmo sombra de palavra, mas ficaram dentro se ti cozinhadas em lenha surda. Acabei descobrindo tudo que teus papéis não confessaram nem a memória de família transmitiu como fato histórico, e agora te conheço mais do que a mim próprio me conheço, pois sou teu vaso e transcendência, teu duende mal encarnado. Refaço os gestos que o retrato não pode ter, aqueles gestos que ficaram em ti à espera de tardia repetição, e tão meus eles se tornaram, tão aderentes ao meu ser que suponho tu os copiaste de mim antes que eu os fizesse, e furtando-me a iniciativa, meu ladrão, roubaste-me o espírito".
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Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 31 de outubro de 1902Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) é considerado um dos principais poetas da literatura brasileira devido à repercussão e alcance de sua obra. Nasceu em Minas Gerais, em uma cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra. Formado em farmácia, durante a maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha começado a escrever cedo e prosseguido até seu falecimento, que se deu em 1987 no Rio de Janeiro, doze dias após a morte de sua única filha, a escritora Maria Julieta Drummond de Andrade. Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas.
(WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Carlos_Drummond_de_Andrade&oldid=6237868>).

domingo, 3 de junho de 2007

Tio e sobrinho no século XXI

Dentro do objetivo deste blog, qual seja, discutir e refletir sobre passado e atualidade, vez que integrantes de uma mesma realidade atemporal, percorremos mais de 200 anos da chegada de nossos antepassados ao Brasil, para podermos tirar essa foto, de dois integrantes da família Klug:

Na foto, o menor (no colo!!) já é conhecido dos amigos deste blog. Ainda não tem profissão, tampouco (penso eu) sabe que quem o segura em seus braços é seu tio Marlon Klug.

Este de já notória reputação, cuja apresentação oficial nos diz: "Marlon Klug é diretor de cena. Dirigiu, em dupla com Carlão Busato, mais de 300 comerciais, desde 1998. Ganhou diversos prêmios como a Lâmpada de ouro da ABP e bronze no festival de NY, entre outros".

Não demorará muito, entretanto, para que o Leonardo tenha muito orgulho e interesse pela carreira dinâmica e desafiadora de seu tio, quem sabe fazendo par com seu outro tio - Peterson Klug, que segue o mesmo métier.

Segue, assim, do passado ao presente, a história de cada um de nós: de Johann Erdmann Klug (Quinto avô do Marlon), nascido em 1801, na Pomerânia, agricultor ... passando por Carl Friedrich Wilhelm Klug (trisavô do referido publicitário), nascido em 1844, com profissão de cocheiro e criador ... aproximando-se do avô Carlos Klug (Carlito), ferroviário, escritor e poeta ... a Marlon Klug, publicitário, diretor de cena e tio do Leonardo.

Um Czar, uma religião, uma língua.

Na foto: Da direita para a esquerda Alexandre,
seu pai João Schechtel, sua segunda esposa
(com a qual casou no Brasil) e as duas filhas desta.
Bem, após a chegada dos alemães na Rússia, vimos que a situação era bem diferente da prometida pela Czarina. No entanto, será que houve alguma mudança nos anos que se seguiram? Será que os alemães sucumbiram às dificuldades?
Para saber o que aconteceu, de fato, damos continuidade ao relato postado no dia 02/06/2007, contido no mesmo livro, do mesmo autor já citado:
"Depois de suportarem por dez anos uma situação de extremas necessidades, com muito trabalho, as aldeias do Volga foram se estruturando e começaram, lentamente, a desenvolverem-se, cehgando no século XIX com uma economia em expansão. As casas foram melhoradas, moinhos de vento e a vapor foram construídos. Os colonos transformaram-se em fazendeiros eficientes e passaram a prover o povo e o Estado russo de trigo, farinha e outros produtos de origem agrícola.
Como conseqüência, a população do Volga aumentou e foram fundadas cerca de cem novas colônias, chamadas de aldeias-filhas. (a maior parte delas no Wiesenseite). Esse desenvolvimento transformou os alemães do Volga em uma força econômica. Uma força econômica quase independente dentro da Rússia. Ali, só se falava o alemão e seus habitantes desfrutavam dos privilégios concedidos pela Czarina na época da imigração. Isso começou a despertar ressentimentos nos camponeses russos, que eram obrigados a pagar pesados impostos e cumprir todas as obrigações para com o Estado. Em razão dessas diferenças, mesmo depois de várias gerações de descendentes nascidos nas vilas, aquela gente não se considerava russa e também era tratada como estrangeira pelos próprios russos.
A língua oficial, dentro das vilas, era o alemão e pouquíssimas pessoas ali conheciam o idioma russo.
Essa situação levou o Czar Alexandre II, neto de Catarina II, a dar os primeiros passos no sentido de retirar todos os direitos concedidos aos alemães.
Aproveitando uma onda de nacionalismo que percorreu toda a Europa a partir de 1870, o Czar iniciou, em 1871, uma política de "russificação" do país, com um lema: "um Czar, uma religião, uma língua". Assim, em 4 de junho deste mesmo ano, decretou o fim de todos os benefícios concedidos aos imigrantes alemães e a seus descendentes.
Noventa e sete anos haviam se passado desde a chegada da primeira leva de colonizadores ao Volga.
Muita coisa tinha mudado depois desses longos anos de sofrimento e trabalho. Em torno de um milhão de habitantes, descendentes daqueles vinte e sete mil pioneiros, habitavam a região.
A partir do decreto, todos, indistintamente, teriam que obedecer, integralmente, às leis russas, pagar todos os impostos e falar a língua oficial do imério: o russo.
Naquela época, a família Schechtel já havia se espalhado pelas vilas de Frank, Kamenka, Schuck e Saratov. Mathias Schechtel, sua esposa Christina e seus filhos mudaram-se para a vila russa de Saratov à procura de melhores condições de trabalho. Johannes (ou João, como meu bisavô foi chamado no Brasil), um dos filhos de Mathias, trabalhou como cocheiro de ambulância em um hospital de Saratov. Casou-se com Anna Maria Matheus e teve, há saber, três filhos: Johannes, Paulina e Alexander (meu avô).
Já no Brasil, Alexander (Alexandre) lembrava que, quando criança, ficava contente cada vez que o pai o levava junto ao hospital de Saratov, pois podia almoçar lá e gostava muito da comida. No inverno, uma de suas brincadeiras favoritas era patinar, com os amigos, sobre as águas congeladas do rio Volga.
Segundo relat0, lembrava, ainda, o "vô" Alexandre, de quando sua mãe ficou doente e foi internada no hospital. Dias depois, durante uma tarde, ele e sua irmã Paulina, viram quando uma carroça fúnebre parou em frente da casa onde moravam, trazendo sua mãe de volta. - Mamãe está chegando! - gritaram de alegria os dois, pensando tratar-se da carroça da ambulância".

Antepassados?

Caros amigos:
O mais interessante dessa história de antepassados e suas aventuras humanas, para mim pelo menos, reside na certeza das ocorrências reais dos fatos narrados, em que podemos inferir as angústias e felicidades por que todos passaram.
Assim, independentemente de "passarmos os olhos" nas histórias vividas pelas famílias Klug, Schechtel, Iede ou pela história das origens da família Silva, Magalhães, Grings, Meinerz, Jung, Haag, Horn ou Schmitt, o relevante é deixarmo-nos levar pelas emoções transmitidas, com a consciência de que estas experiências vividas no passado são condições sinae qua non para nossa existência hoje.
A foto ao lado retrata parte da família Iede, que veio de Ponta Grossa para Curitiba.
João (Johannes) Iede, sua esposa Katharina e filhos (da direita para a esquerda) José, Ana, Amália* e João Filho. O jovem atrás é Jorge (Georg), irmão mais novo de João.
* Amália é minha bisavó (avó do autor do livro já citado), mãe de minha avó paterna.

sábado, 2 de junho de 2007

Da Desolação à Determinação: A Épica Jornada dos Germânicos Rumo à Rússia - Uma Saga de Promessas, Desafios e Resiliência

Imigração Alemã para a Rússia - Trecho do livro "Origens - Família Schechtel, Família Iede (Jede), escrito por Edilson Klug

"Durante o século XVIII, a Europa e todo o território do antigo Império Germânico (onde hoje está localizada a Alemanha), passavam por inúmeros conflitos entre as várias "casas" reinantes. Eram glebas disputadas por príncipes, condes e duques. (A Alemanha só consolidou-se como nação muitos anos depois, em 1871). Como resultado dessas lutas pela posse de terras, eclodiu a "Guerra dos Trinta Anos" que assolou a região entre os anos de 1.618 e 1648. Os combates aconteciam dentro do território germânico. Logo após o término dessa longa guerra, seguiu-se a "Guerra dos Sete Anos" (1756 a 1763). A morte dos jovens soldados na guerra, a fome, as doenças e o desemprego levaram o povo germânico ao desespero. Estima-se que trinta e cinco por cento da população tenha morrido em razão dessas guerras, enquanto os sobreviventes eram submetidos a uma situação de extrema pobreza e desesperança. Neste mesmo período, subia ao trono da Rússia a czarina Catarina II, ocasião em que aquele Império passava por profundas modificações, consolidando suas fronteiras e modernizando o Estado. A par do objetivo claro e difundido de povoar as terras do Império, havia um outro objetivo conhecido por poucos: O Império russo era constantemente assolado por bárbaros provenientes do Leste. Tribos nômades invadiam povoados, saqueavam as colheitas, matavam quem resistisse e raptavam os russos jovens do interior para vendê-los como escravos na China. Portanto, o segundo objetivo do alto comando russo, possivelmente sem o conhecimento de Catarina II era, em estabelecendo colônias de imigrantes nas regiões desabitadas, criar um anteparo (escudo) contra as invasões bárbaras, evitando assim, que fossem atingidas as povoações russas. Catarina II, conhecendo a situação difícil pela qual passavam os alemães depois das duas guerras seguidas, assim como a capacidade de sobrevivência e de trabalho de seus compatriotas, publicou um Manifesto com o objetivo de convidá-los a imigrarem para a Rússia, prometendo como incentivos: custeio da viagem até o local de assentamento, terras para cultivo, casas para moradia, ferramentas, auxílio financeiro par o início das atividades, isenção de impostos, dispensa do serviço militar russo aos imigrantes e a seus descendentes e liberdade de religião. Foi, ainda, garantido o direito aos imigrantes de continuarem a utilizar a língua germânica e seus dialetos, assim como manterem os costumes e tradições da sua terra natal. A partir daí, iniciou-se o fluxo imigratório em direção à Rússia e, no período de 1764 a 1767, vinte e sete mil germânicos fizeram esta viagem. Uma grande parte deixou sua terra natal, iludida com as promessas dos agentes russos de que ficariam em cidades grandes, trabalhando nas profissões que exerciam na Alemanha. Foram surpreendidos pelas péssimas condições de viagem e pelo fato de que teriam que trabalhar todos como agricultores, em uma região despovoada das estepes russas, às margens do rio Volga, conhecida como Baixo Volga, sem condições de exercer qualquer outra profissão. (A maioria dos imigrantes era formada por artífices e nada conheciam de agricultura). A esta altura dos acontecimentos não havia como voltar. Foi uma longa viagem de sofrimentos e penúria. Muitos morreram durante o deslocamento, vítimas de doenças e fome. Ao chegarem no local estabelecido, as casa prometidas não existiam e nem material para construí-las. Com o inverno chegando, tiveram que passar meses em buracos cavados às pressas na terra para não morrerem de frio. Assim mesmo, centenas de vidas foram perdidas, tão desumanas as condições. Ao final do inverno começaram a chegar de longe, através do rio, os materiais para construção das primeiras moradias (O Baixo Volga era uma região de campos, conhecida como "estepe russa", onde não existiam árvores de porte nem pedras que pudessem servir para construção). Depois de precariamente estabelecidos e de muito trabalho no preparo do solo e no plantio, as primeiras colheitas foram frustrantes em razão da pouca qualidade da terra e da falta de conhecimento dos germânicos, sobre os trabalhos do campo. Outro problema agravou a situação. Os ataques dos bárbaros vieram logo nos primeiros anos. Mais de 1.000 jovens alemães foram raptados naquela época pela tribo dos Kirghizes e vendidos como escravos na China (nunca mais se ouviu falar deles). As aldeias foram formadas de acordo com a religião do grupo fundador. Existiam aldeias católicas e outras protestantes. As moradias eram construídas em torno de uma rua e, no fim desta, a Igreja. A religião foi o instrumento que manteve os imigrantes unidos, dando-lhes força para suportar as provações e esperanças de que conseguiriam reverter aquele pesadelo. A Igreja não era só o centro da fé, mas também o centro de organização comunitária dentro das vilas. A região onde foram instalados os alemães, conhecida como Baixo Volga, compreendia uma extensão de terras nos dois lados do rio do mesmo nome, onde predominava uma vegetação rasteira de campos, conhecida como estepe. Assim, nesta região, próxima às vilas russas de Saratov e Sâmara, os imigrantes fundaram cento e quatro colônias nos dois lados do rio Volga. O lado oeste do rio ficou conhecido como Bergseite “lado da montanha” com sede na vila de Saratov. O lado leste ficou conhecido como Wiesenseite “lado do prado”, com sede na vila de Sâmara, conforme os mapas apresentados. Como forma de evitar que os imigrantes vendessem posteriormente suas terras e abandonassem a colonização, o Governo Russo doou as terras “para as vilas” e estas cediam-nas perpetuamente para os colonos. Se alguma família deixasse o local, sua terra era destinada a outro imigrante".
(esta história continua um outro dia)