COM A NOITE,
AQUELA SENSAÇÃO
DE VAZIO, DE INTEIRO
ABANDONO...
O pequeno rádio da sala ora dava
notícias de um mundo longínquo, ora
apregoava mercadorias, ou apresentava
uma cantiga.
Mas, por quê?
Se a verdadeira canção estava lá
fora, no cantar da fonte cristalina, no cicio
amoroso da folhagem, no perfume das
flores que desabrochavam.
Quando a grande poesia está na
espera por alguém que não vem.
Uma rãzinha verde fitava perplexa a
imensa abóbada estrelada, como que
cismando sobre a diferença que vai da
estreiteza do raciocínio humano à
incomensurável grandiosidade dos
desígnios divinos.
Em rápida sucessão rememorou os
principais acontecimentos da sua vida
conjugal, a aflição dos primeiros tempos
em que o marido viajava, sempre
temerosa de que algo de mal
acontecesse...
A angústia dos minutos intermináveis
de espera...
Todavia, para compensar, a alegria
das chegadas, ele cansado, porém
carinhoso, relatando com entusiasmo os
menores incidentes da viagem.
Até que, certo dia, a notícia do
acidente fatal, que a lançou na cruel solidão.
tecia demoradas considerações
sobre o assunto, procurando coragem
na sua fraqueza, como criança pobre
imagina um vestido de baile para sua
boneca de pano.
Caprichava no entrelaçamento das
idéias, porém, ao invés de fino rendado
deparava-se-lhe grotesco emaranhado.
Uma fina fatia de lua, lá do alto,
espreitava por detrás das nuvens,
vestindo de prata a exuberância da
noite brasileira.
E de repente, dentro da noite, o
silvo agudo do trem que chegava.
A Estação devia estar cheia de
gente que aguardava ansiosa os seus
entes queridos...
A viúva do maquinista enxugou
mais uma lágrima.
(página 17, do livro "Família Klug", de Edilson Klug)

2 comentários:
Fico feliz por você ter entendido o espírito da coisa e, através do conteúdo inicial deste blog, ter avançado de onde eu parei.
Edilson Klug
Boa tarde,
Esse conto é lindíssimo bem como todo que o autor escreveu.
Sendo filha conheci intimamante o ilustríssimo Sr.Carlos Klug.
Att,
P.C.KLUG.
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